sábado, 7 de agosto de 2010

A importância de chamar os bois pelos nomes

Como filha, senti (ainda não ouvi, passados que estão 10 anos) necessidade de ouvir a minha mãe dizer "tenho/tive cancro". Seria, certamente, menos duro do que ir percebendo a situação através de comentários inocentes, mas infelizes, das pessoas que me rodeavam (e às minhas irmãs).

Mas passado é passado e tudo correu pelo melhor, que é o que interessa. Lembrei-me disto só por causa de um episódio que vivi esta semana. Estava eu a almoçar com os meus avós, quando o meu avô pergunta "correu bem, ontem?", referindo-se à retirada do cateter. Respondi que sim e lá veio a pergunta difícil "afinal porque é que te puseram isso?"

Como sabem, tentei proteger os meus avós e evitei ao máximo que soubessem pormenores sobre a minha doença. Mas antes de começar a quimio, tive o cuidado de lhes dizer o que iria fazer. Pensava eu que dizer que iria fazer quimio equivalia a dizer, de forma eufemística, tenho cancro. Pelos vistos, enganei-me redondamente. O meu avô (muito velhinho, muito surdo, mas completamente lúcido) não o percebeu. Na verdade, acho que não quis perceber. Provavelmente terá sido mais uma daquelas situações em que a mente bloqueou a informação, para minimizar o seu impacto.

Desta vez, e estando já em fase de manutenção, senti que tinha de dar nome às coisas, mas nem assim o consegui. Como neta, fui incapaz de dizer "tive cancro" e lá expliquei "tive um linfoma".

É curioso como é difícil chamar os bois pelos nomes. Não tenho a certeza de ter agido bem, em todos este processo. Fiz o que me pareceu correcto, tal como a minha mãe, certamente

4 comentários:

  1. Não é fácil, não, Susana...
    Nem sei dizer qual a fórmula correcta. Eu optei por chamar os ditos pelo nome, mas não acho que seja a fórmula para todos os casos.
    Mas não é fácil...
    Estive na tua terra, na Feira Medieval. Muito, muito gira!

    ResponderEliminar
  2. Gostei do post:)
    Aconteceu-me o mesmo com a minha avó, que depois de duas operações e 2 meses de radioterapia me perguntou o que é que eu tinha e ficou chocada quando eu disse: "cancro". Não consegui usar eufemismos, não lhe consegui esconder para a poupar, não sei ainda hoje se feliz ou infelizmente. O que sei é que será sempre difícil dizer a alguém que gosta de nós "tenho/tive cancro".

    ResponderEliminar
  3. Sobre este desabafo:

    http://eutueosmeussapatos.blogspot.com/2010/07/ja-vos-disse-que-detesto.html

    Parabéns pela força!

    Bisouxxx

    ResponderEliminar
  4. Olá Susana!

    Não sabia que conhecias a minha mãe... ;)

    Obrigada não pelo comentário, mas pelo sentimento que transmitiste!

    Deixaste-me embevecida!

    E sim, tiveste cancro. Passado. E bem resolvido ;)

    Um beijinho grande

    ResponderEliminar

Obrigada por dar vida a este blog.