quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Corrente de positivismo

Algumas das pessoas que por aqui passam têm elogiado aquilo a que chamaram "corrente de positivismo" que, segundo elas, paira neste blog.

Tenho pensado muito nisso. O primeiro sentimento que me assola é o de felicidade.

Como sabem criei o blog num momento em que travava uma grande guerra contra um cancro, na forma de Mr. Hodgkin. Fi-lo para não só para desabafar, mas também porque acreditei (e acredito) que a minha experiência pode dar ânimo a outras pessoas, tais como blogs com a mesma origem me deram a mim. Fico, por isso, muito feliz quando me dizem que aquilo que escrevo (seja dito em tom sério ou de baboseira, mas nem por isso menos sério) faz alguém sorrir.

Em relação ao positivismo, é das tais coisas (como a fé) que tenho dificuldade em explicar.

Como dizia Ortega Y Gasset (hoje estou muito erudita) "Nós somos nós e as nossas circunstâncias". Posso agradecer aquilo que sou, e a maneira como tento encarar as adversidades,a muitas pessoas e a muitas coisas.

Os meus avós e pais sempre me ensinaram que a vida não é sempre aquilo que queremos e, por isso, temos de saber viver com as contrariedades. A minha avó deu-me a conhecer um Deus, que é Amigo e que "nunca nos dá uma cruz maior do que aquela que conseguimos carregar". O meu marido dá-me todo o Amor e liberdade, nunca me deixando só. As minhas filhas são uma fonte de vida nova. Os meus amigos dão sempre "o corpo ao manifesto", como se costuma dizer. E podia continuar a elencar motivos que me fazem ser positiva.

Contudo, há uma parte essencial que depende de mim e que não posso deixar para os outros. A vontade de lutar. A reacção tem de partir de mim. De nada adianta ter todos os outros à nossa volta a puxar o barco se nós não colaborarmos. Foi isso mesmo que tentei fazer durante a fase activa da doença.

Tive, e tenho, muito medo. Já o disse, e repito, não há dia que não pense no cancro. Que não passe a mão, vezes sem conta, na cicatriz do local onde me colocaram o cateter. Tenho grande momentos de angústia, mas acho que isso faz parte do ser humano e só mostra que gosto de viver.

Não sou uma pessoa totalmente realizada, acho que ninguém o é. Não vou é ficar sentada à espera da realização total. Perante o menos bom procuro centrar-me num ensinamento recente, que não me sai da cabeça, quando surge um problema temos de procurar soluções, e não pensar em mais obstáculos.

É assim que procuro viver, nuns dias mais bem disposta noutros menos, mas sempre a andar porque apesar das costelas alentejanas, de que tanto me orgulho, sentar e esperar que passe não é, de todo, a solução.

Presentemente, e tirando algum stress, sinto-me muito bem.

4 comentários:

  1. Gostei, como em tudo o que escreves.
    Beijinhos grandes e bom feriado!

    ResponderEliminar
  2. Para mim a parte complicada é pensar no cancro todos os dias (primeira coisa que penso ao acordar, ultima ao deitar) mas ao mesmo tempo não deixar que isso comande a minha vida.
    E acho que tu fazes isso muito bem, controlar as angustias, continuar a viver, sentir profundamente os pequenos momentos de felicidade sem que estejam manchados pelo cancro.
    é preciso coragem para continuar a viver "la vraie vie", aquela que é mais que respirar, comer e dormir. é preciso coragem para manter o medo em checkmate.
    Continua à procura das soluções, porque pelo caminho vais mostrando a outros (como eu) que é possível fazê-lo, e que é mais eficaz do que nos deixarmos afogar pelos obstáculos. às vezes precisamos de exemplos concretos de pessoas que vivem realmente assim para nos inspirar. :)
    Um grande beijinho*

    ResponderEliminar
  3. não é por ser tua mãe, mas és um exemplo positivo para muitas pessoas, do que me orgulho muito.

    ResponderEliminar
  4. O teu citado de Ortega Y Gasset é o mau favorito! E tb aprendi a procurar a solucao, embora muitas vezes necessite de uma pequena dose de panico quando me deparo com os obstáculos. Quanto ao checkmate... Disse-me esta semana um dos meus alunos menos simpáticos que queria que eu morresse, ao que lhe respondi "Não te preocupes que tenho a certeza que morrerei quer tu queiras quer não!"

    E sempre que precisares de um pouco do meu apoio de humor mórbido, já sabes :)

    Galinhola

    ResponderEliminar

Obrigada por dar vida a este blog.