Tardes de domingo

Ainda sou do tempo em que o futebol se jogava ao domingo à tarde. Coisa rara nos dias que correm.

Nos dias em que os jogos eram fora, as mulheres ficavam no carro a fazer crochet, com as crianças aos berros no banco de trás, enquanto os homens iam à bola.

Quando estava bom tempo, as mamãs levavam a pequenada até aos baloiços ou a dar um passeio pelas redondezas.

Foi assim que conheci, por exemplo, o castelo da então Vila da Feira, mais tarde Santa Maria da Feira, para onde o destino havia de me trazer muitos anos depois.

Longe de ficar traumatizada com estes programas dominicais, para algumas um tanto ou quanto machistas, tornei-me, com o tempo, a companhia do meu pai nos jogos.

Cada tarde de domingo era uma emoção. Está a chover tanto, será que o pai quer ir? E lá ficava eu caladinha, a fazer figas atrás das costas.

O bilhete é tão caro. Lá começavam os adeptos visitantes, entre os quais o meu pai, a praguejar entre dentes, terminando sempre a dizer em voz alta "como é que estes gajos querem que a gente venha ao futebol". E eu caladinha, a torcer para que o pai não desistisse e fossemos embora.

Vibrava com cada vitória do meu Beira-Mar,sofria com as suas muitas derrotas, tinha o calendário dos jogos, recortava os comentários.

Quando terminava o jogo lá regressávamos ao Porto, sempre a ouvir os relatos e os resumos dos outros jogos. Ainda hoje gosto de conduzir tendo os os relatos como "música de fundo".

Para mim, ir ao futebol perdeu a graça, quando o Beira-Mar deixou de jogar no velhinho Mário Duarte. Não temos, como é evidente, dimensão para jogar naquele "elefante colorido". Desapareceu aquele sentimento de proximidade com os jogadores e restantes adeptos. Já nos conhecíamos todos, sabíamos onde se costumava sentar cada um. Estar a assistir a um jogo oficial num ambiente mais silencioso que o de um jogo treino deixa uma sensação de vazio.

Continuo a gostar muito de futebol mas os meus interesses foram mudando, pelo simples decurso da vida.

E cá estou eu, num domingo à tarde, a mexer no baú das memórias.

Comentários

  1. Ora bem, que as crianças ficavam no banco de trás aos berros...no nosso caso não. Eu ia sempre prevenida com livros para colorir e respectivos lápis de cor, assim como outros livros infantis. Claro que as minhas agulhas sempre me acompanhavam, como ainda hoje, quando vou a qualquer lado. Como começaste com "o bichinho da bola" muito cedo e acompanhavas o pai aos jogos, não assististe a certos passeios no Parque de Santo Tirso, com visitas a exposição de achados de arqueologia na zona, assim como a uma exposição de quadros feitos com escamas de peixe, em Estarreja, e outros, acontecimentos estes intervalados com o lanche levado de casa, complementado com uma goluseima que escolhiam no café. Tenho saudades desses tempos em que as minhas crianças me acompanhavam e continuo sem achar graça ao futebol e aos relatos que a rádio transmite, quando ando de carro! bjs

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  2. olá, abençoadas tardes de domingo. Ainda mais quando entravamos, à borla (importante), na companhia de um sócio, eh eh eh. Nem que para isso o Sócio, tivesse de pagar as quotas em atraso...
    Foi sim um grande previlégio, sem duvida.

    Beijo grande

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