quarta-feira, 8 de junho de 2011

Me and Mr. Hodgkin

Até Dezembro de 2008, vivia num estado de santa ignorância. Não fazia ideia da existência de Mr. Hodgkin e até a palavra linfoma me passava ao lado.
Agora que o conheço, o gajo até nos livros da Agatha Christie me aparece (e já tinha lido muitos até então).

Se tivesse de escrever um livro sobre este senhor seria algo do género "twilight zone", género que, diga-se de passagem, sempre detestei. Tudo se passaria num mundo paralelo e os leitores ficariam sempre na dúvida sobre o que verdadeiramente aconteceu (ou pode ainda vir a acontecer).

Tudo me parece imaginação desta cabecinha de vento. Muitas vezes penso que sonhei e só as cicatrizes que me marcam o corpo mostram que algo se passa/passou.

Desde logo pelos, poucos, sintomas que apareceram mascarados de problemas bem mais simples de resolver. A ferida que foi furúnculo durante um bom tempo e a comichão que poderia indiciar problemas de fígado ou colestase gravídica e passaria após o parto.

A convicção do médico (99,99999%, disse) de que a situação teria ficado resolvida com a biópsia excisional e me deixou bem mais tranquila, sem desconfiar de nada quando começou a tal comichão horrível.

A ignorância é uma benção tão grande que, quando nasceu a Leonor, consegui deixar de sentir comichão. Seria, talvez, do Atarax que puseram no soro ou da força da mente.

Mas a comichão voltou em força e quando fui ao IPO, para fazer os exames que dariam os 100% de certeza de tudo estar resolvido, a médica palpou um gânglio axilar.

Bora lá fazer mais uma biópsiazinha, que doeu como tudo. E já agora, daí a uns dias, mais uma biópsia à medula óssea.

Estava a ignorante sentada na marquesa para fazer a biópsia à medula óssea, quando a médica diz "olhe é um Hodgkin", assim como quem diz é só uma gripe. "Dê-se por feliz porque é de muito bom prognóstico. Nem fixei a percentagem de sobrevida porque já estava no tal mundo paralelo.

Soube então que teria de fazer quimio e, mais tarde, radio.

Depois dos resultados de todos os exames, a coisa ganhou ainda mais emoção. Afinal era estadio IV, por isso só faria quimio e se esta não resultasse, teria de fazer outra que obrigaria a internamento.

Entretanto o coitado do meu cérebro ia tentando processar a informação. Felizmente na altura,sei-o agora, não processou metade.

Nos intervalos, havia que gerir a parte familiar. Contar o que se estava a passar (a maior dor de todas), cuidar de uma recém-nascida como se nada passasse (o maior objectivo) e, depois, tratar a paciente.

Chegar a casa, depois da 1.ª sessão de quimio, e não vomitar (nunca vomitei) foi das sensações mais estranhas que já vivi. Para mim, quimio era sinónimo de vómito. Passou-me tanta coisa pela cabeça, achei que havia erro médico, que o diagnóstico estava errado e os medicamentos também. Enfim, o cérebro pode não ter processado a informação mas fartou-se de trabalhar.

O cabelo começou a cair (nunca tinha imaginado que um fio de cabelo pesasse tanto). Algo me impedia de ir tratar da prótese capilar cuja prescrição tinha desde o primeiro dia. Estava aterrada pois nem jeito tenho para colocar ganchos, quanto mais lenços. De repente, aí a meio dos tratamentos, o cabelo deixa de cair. Nova dúvida existencial e até sentimento de culpa. Porque é que os efeitos secundários são tão duros em algumas pessoas e em mim até são suportáveis? Não sou mais que ninguém.

Assim contado até parece que foi canja, mas não foi. Só de reviver estes momentos, só de falar na quimio, fico enjoada. Por isso mesmo não sei explicar o turbilhão de sentimentos.

Ao longo de todo este percurso tenho momentos em que parece que estou, de fora, a ver um filme que não tem nada a ver com a minha vida.

Não esqueço as palavras da médica que disse que, depois daquela dose de quimio, nunca mais seria uma mulher normal.

Não me consigo alhear do facto de que só ouvirei a palavra cura daqui a uns tempitos.

Não consigo evitar ficar em pânico com a mais pequena comichão, que me lembra logo a palavra recidiva.

Acordo e deito-me a pensar em Mr. Hodgkin, o que me parece traição moral e motivo de divórcio.

Apesar disto tudo, continua a parecer-me que esta história nunca aconteceu. Não sinto efeitos secundários da quimio. Engravidei com uma rapidez fenomenal. Não vivo triste e acabrunhada.

Estarei a ficar louca?

PS
Não sei se o facto de estar a dias de voltar a análises e consultas, desta vez de medicina interna para apurar se os meus rins estão a bombar bem, terá alguma coisa a ver com este post parvo, no qual atropelo as ideias e não consigo exprimir tudo o que vai cá dentro.

5 comentários:

  1. "Nos intervalos, havia que gerir a parte familiar."- Confere.

    "Não me consigo alhear do facto de que só ouvirei a palavra cura daqui a uns tempitos."- Confere.

    "Acordo e deito-me a pensar em Mr. Hodgkin"- Confere. (no meu caso, substituir Mr. Hodgkin por tumor maligno em geral; sim, porque até tenho medo que me apareçam outros cancros diferentes do que tenho/tive)

    Não foi um post fácil de seguir, mas compreendo muitas coisas de que falas. Outras ainda não, mas espero lá chegar um dia (essa parte de ser feliz e de às vezes pensar que o que nos aconteceu foi só um sonho). Entrei em remissão há pouco mais de duas semanas, e apesar de "remissão" ser uma coisa boa, também sinto que entrei na parte mais difícil desta luta: como digerir o que se passou comigo? Como aceitar as mutilações que tive que sofrer? Como é que se vive com cancro, com a palavra "cura" algures num horizonte eventual? Se calhar colocar tudo numa realidade paralela e abençoar a ignorância de certos factores é mesmo a melhor coisa a fazer. Pode ser confuso, mas acho que é o teu cérebro a querer arrumar o Mr Hodgkin e andar para a frente. E se ele ficar arrumado na zona onírica do cérebro, desde que não chateie mais, qual é o problema? ;)
    Um beijinho*

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  2. Não sei que te dizer... Ainda é confuso.
    Beijocas

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  3. Imagina eu, a mãe da doente, ao ter conhecimento do que realmente padecia a filhota mais velha, grávida e que inicialmente pensava tratar-se "apenas" de uma furunculose!
    No decorrer da minha vida profissional emiti resmas de boletins de enterramento,observando antes, atentamente,m os certificados emitidos pelos médicos, pois havia que verificar se a causa principal da morte, ou as causas antececentes, eram naturais ou careciam de autópsia ou dispensa da mesma.
    Já tinha tido a experiência pessoal de, no resultado de uma biópsia ao estômago, verificar que era detentora de um adenocarcinoma gástrico, (história muito comprida, porque o mesmo parecia encontrar-se metastizado, o que não se verificou).
    Passados anos, o irmão mais velho adoeceu com um tenebroso carcinoma no palato mole, que o levou após dois anos de sofrimento atroz, para ele e para a família!
    Muito confuso tudo isto...

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  4. Só agora é que li este post tão triste mas tão sincero. Da minha parte, digo que o meu cérebro não chegou a processar o assunto muito bem. E ainda bem, como dizes, porque estou convencida de que se trata de um mecanismo de defesa. O que é certo que ainda hoje agradeço "a quem esteja a ouvir" o facto de tudo ter corrido tão bem... dentro do detestável leque de opções.

    Ouvi alguém dizer que "a vida não é justa, mas é boa na mesma". Acredito que seja assim, mas apenas porque conseguiste vencer. E sei que assim vai permanecer.

    Beijinho de uma irmã sensibilizada

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  5. Este teu post é maravilhoso... E os testemunhos da família acompanham... Um grande beijinho
    TP

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Obrigada por dar vida a este blog.