Que morte quero?

Até há relativamente pouco tempo evitava falar da morte, como se isso a fosse chamar. Acho que não sou caso único, já que o tema morte é tabu para muitos.

Foi preciso vê-la próxima dos meus e até de mim para perceber que nada há de mais certo na vida.

A morte é um momento da vida, tal qual o nascimento. Uma das grandes diferenças é que não a preparamos, tal como o fazemos com o nascimento em que não poupamos leituras e aulas.

Não falo, naturalmente, das cerimónias fúnebres. Quem cá fica há-de resolver. Pessoalmente dispenso bem as flores, especialmente as de quem não me passa cavaco ou só me dá cabo da cabeça.

Assisto/participo nas muitas discussões que têm havido acerca da eutanásia e há coisas que me preocupam sobremaneira. Para além de temer que muitos não cheguem a perceber o que está em causa e as portas que se podem abrir existe a enorme certeza que enquanto não for implementada uma boa rede de cuidados paliativos será muito difícil explicar e fazer sentir a quem sofre que eutanásia e dignidade na morte são conceitos em nada relacionados.

De nada vale ter um bonito plano nacional de cuidados paliativos e nomear equipas disciplinares com médicos, psicólogos, assistentes sociais e capelãoquando essa equipa não chega a intervir, por falta de vagas. Isto nos casos menos maus.

É que os cuidados paliativos vão muito além de cuidar da dor física. Essa retira-se com a ajuda de morfina, em qualquer enfermaria. Há que tratar o sofrimento moral e espiritual; conceder condições de privacidade para a necessidade despedida; não definir horas de início e fim de visitas.

E esse tratamento é imprescindível não só para o doente como para familiares e amigos que, acreditem, ficam desorientados em momentos como estes.

Ora, isto é quase uma miragem em Portugal. Não se trata o sofrimento e tenho receio que chegue o dia em que alguma alma iluminada se resolva defender que a eutanásia fique ao alcance também dos familiares. É que esta dor é atroz.

É por isso que quero a possibilidade de uma morte assistida, pela tal equipa multidisciplinar de cuidados paliativos e em condições de conforto.

Isso sim, é morrer com dignidade e não ter de chegar ao ponto de pedir a alguém que acabe com a nossa vida.

Assumo, por isso, como um dever cívico a defesa desta causa. Temos direito a bons cuidados paliativos. Vamos defendê-lo com a vida.

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