Ando particularmente meditativa, o que raras vezes dá bom resultado.
Apesar de não ser nada pessimista, desta vez começo a ficar assustada com a crise económica. No entanto, a crise de valores a que assisto ao meu redor consegue ser ainda mais preocupante.
Tenho recebido quilos de roupa usada de criança que é dada a instituições e que, segundo quem ma tem entregue, se eu não aceitar será colocada no lixo.
E não estou a falar de uma instituição, falo de várias. Também não falo de monos, de há 10 anos. Falo de roupa nova e, muita dela, de marca (que para muitos é algo que valoriza).
Tenho ficado com alguma, outra dou e aquela com que fiquei também dou, assim que deixa de servir à Leonor.
As primeiras vezes que me disseram "trouxe para ver se querias, porque senão iam deitá-la fora", pensei que estavam a gozar comigo. Achava impensável que fosse verdade. Mas depois de ouvir o mesmo, de pessoas diferentes caí em mim. É verdade e acontece em todo o lado.
Sinceramente, este fenómeno que também se passa com a alimentação (basta ouvirmos as últimas notícias de instituições que não conseguem escoar os bens alimentares que recebem, muitos dos quais acabam por ficar fora de validade) deixa-me a pensar.
Uma vez que não falta quem necessite, o problema deve estar na distribuição. E, mais grave, na mentalidade que se instalou. A crise é mais de valores que outra coisa.
Parece-me que nos habituámos um nível de vida e uma selectividade tal, que já não sabemos lidar com a adversidade.
Pela primeira vez, consigo perceber quem diz que não faz donativos porque não sabe se aquilo que dá chega ao destino.
Apesar de tudo, não mudo a minha possição. Continuo a ajudar no que posso e a acreditar que se todos dermos um pouco de nós, o mundo será bem melhor.