A um mês do fim



Esta foto foi tirada a um mês do fim da quimio.

Ao olhar para ela, fico sem palavras. Lembro-me da precrição da prótese capilar (como lhe chamou a médica), que me foi apresentada como uma fatalidade. Disse que a ia querer, no imediato, mas depois algo em mim impediu que a fosse escolher.

Lembro-me das vezes em que fui à cabeleireira, cortar o cabelo aos poucos, para custar menos a mudança de imagem. Lembro-me de rezar para que ninguém falasse comigo naquele momento.

Vivia aterrorizada com o dia em que teria de usar um lenço. Nunca tive jeito para adereços. Lembro-me, como se fosse hoje, de ir ao shopping com o meu marido escolher alguns. A dor era tanta, que parecia que me estavam a espetar facas no coração.

Lembro-me de estar dias a fio sem tocar no cabelo, numa tentativa de o salvar.

Lembro-me de como me tentava esquivar aos toques da Leonor (talvez por isso ela tenha, agora, uma predilecção pelo meu cabelo).

Lembro-me de uma das vezes em que cheguei da cabeleireira e, ao entrar no quarto, a Leonor começou a choramingar. Lembro-me de sair so quarto a correr, para chorar no quarto ao lado, a penspor que já não me reconhecia. Lembro-me de o meu pai se ter apercebido da situação e do abraço forte que me deu para suavizar a dor.

Para meu grande espanto (e alívio), o cabelo, cujo peso sentia nos ombros ao cair, foi aguentando e os lenços acabaram por seu usados ao pescoço.

Podem dizer que é só cabelo, que volta a crescer normalmente (ou aos caracóis). Sei que é verdade, mas não deixa também de ser também a moldura do nosso rosto, um símbolo da nossa feminilidade.

Até nisso tive sorte. Apesar de toda a angústia (que sempre tentei esconder), o cabelo aguentou-se e houve quem pensasse que estava com  cabelo fraco por causa do pós parto.

Tive (e tenho sorte), mas não consigo evitar estas lembranças.

Comentários

  1. Eu ia apanhando os cabelos que apareciam em todo o lado, até nos babetes da bebé, sempre a tentar que não te apercebesses...
    Todas as situações que referiste, tenho-as gravadas na memória.
    O cancro afeta a pessoa que o tem, a família e os amigos; Tu, felizmente, tiveste uma força incalculável para o enfrentar, e a união da família e dos amigos, também muito importante; todos a remar para a frente!
    bj

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  2. Chérie, estou aterrorizada a pensar no estado em q vai ficar o meu cabelo. Ja pensei se hei-de cortar, rapar, antes q caia, ou esperar (esperançosa) q afinal nao caia... e dizerem-me q volta a crescer nao ajuda; sei la eu se estou ca o tempo suficiente para q ele volte a crescer!... bisous

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  3. E pensar que ao pensar na possibilidade de o teu cabelo cair, deixei o meu crescer para to dar! De coração, adoro te!

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  4. Pois é, tudo isso que referiste é a pura verdade. A parte dos cabelos, é muito complicada porque é a face visivel da doença. Da 1ª vez que tive doente o cabelo só me caiu todo já quase no fim do tratamnento, o que é um bocado ridiculo.

    Houve gente que só soube que eu estava doente, quando eu já tinha acabado os tratamentos, porque me viu sem cabelo (de lenço, claro).

    O que me valeu, foi que o Jota tb tem sempre o cabelo rapado e faziamos um belo par de carecas.

    Hoje consigo sorrir ao lembrar.me disto, mas na altura, brrrr....nem me quero lembrar. Beijos.

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